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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ
BENEFÍCIOS FÍSICOS
E PSICOLÓGICOS
DA CORRIDA RÚSTICA
DE LONGA DURAÇÃO
LUCIANO
FREITAS DE ANDRADE
Acadêmico do segundo ano de Educação Física
da UEM, Luciano começa a sua caminhada em busca do conhecimento. Ele
apresenta informações de interesse dos corredores de rua neste
texto apresentado à disciplina de Iniciação a Ciência e a Pesquisa.
MARINGÁ/2005
É
no esporte que se pode comprimir uma vida inteira em poucas horas,
onde se podem sentir todas as emoções de uma vida inteira em algumas
centenas de metros. Uma pessoa pode sofrer, morrer e ressuscitar em
10 quilômetros de trilhas através de um parque em Nova York. O esporte
é um teatro em que o pecador pode transformar-se em santo e o homem
comum virar herói incomum, onde o passado e o futuro podem fundir-se
com o presente. O esporte nos pode proporcionar experiências extraordinárias,
em que nos sentimos integrados com o mundo e transcendemos a todos
os conflitos, ao realizarmos finalmente todo o nosso potencial.
GEORGE A. SHEEHAN.
Guia completo de corrida.
RESUMO
Ao longo do desenvolvimento da humanidade, o número de praticantes
de Corridas de Longa Duração cresceu muito, em especial a partir
da década de setenta, crescendo, assim, o interesse dos pesquisadores
sobre seus benefícios e malefícios, tanto físicos como psicológicos.
O que faz com que as pessoas corram dia após dia de suas vidas sem
ter prêmio material algum? A partir da análise de diversos autores
renomados na literatura sobre corridas de longa duração, este trabalho
discute os diversos benefícios físicos e psicológicos e métodos
preventivos a serem utilizados na prática mais eficiente e segura
desta atividade. Assim, a presente pesquisa tem por finalidade esclarecer todos
os interessados nessa prática sobre os benefícios e prejuízos dela
decorrentes.
Palavras-chave:
CORRIDA DE LONGA DURAÇÃO, BENEFÍCIOS FÍSICOS E PSICOLÓGICOS, PREVENÇÃO.
A vida do homem depende de energia, esta energia provém em
grande parte do Sol. “A vida existe porque há necessidade de gastar energia”
(FOSS; KETEYIAN, 2000, p.18). Esta energia é fornecida pelo nosso Sol,
absorvida pelas plantas que, pela alimentação, a passam aos animais que a
transforma em energia mecânica.
Desde a pré-história, o homem, caça, pesca e prepara sua
própria refeição. Gastavam-se grandes quantidades de energia na realização
dessas tarefas, assim havia um equilíbrio entre o que era consumido e o que era
gasto. Com o advento da modernidade o homem deixou de caçar e pescar para
sobreviver, bastando ir a um supermercado para encontrar seu alimento
preferido, sem qualquer gasto energético, isto para aqueles que tem acesso a
estes bens de consumo. Em virtude disso, conforme muitas pesquisas, estamos
observando um grande aumento no número de pessoas obesas, predispondo-se as
mais variadas doenças decorrentes da falta de atividade física.
O homem moderno está constantemente exposto ao estresse e
este grande desenvolvimento tecnológico pouco a pouco afetou o homem em suas
atividades físicas. Este mundo, num primeiro momento, parece quevaiconduzir o homemauma vida melhor e mais sadia, mas o que
observamoséo aumento do número de váriasdoençasditasdamodernidade. “E o homem não percebe isto, pois não tem seu senso crítico
estimulado, mas ao contrário, é conduzido gradativamente à passividade, através
de vários mecanismos de alienação e manipulação de que dispõe o mundo moderno”.
(MOREIRA, 1984, p.22).
Nesse mundo, as atividades físicas vão se tornando cada vez
mais um hobby que, quando consegue
associar equilíbrio psicológico ao condicionamento físico, permite um grande
desenvolvimento psicossomático. Na verdade, segundo Platão (apud MOREIRA, 1984,
p.23 ),para que o homem se realize
plenamente ele deve ser ativo e criativo. A vida seria a própria ação, o
movimento. Inclusive o movimento da alma, bastante favorecido pela ação
muscular. “O homem só vive quando pode se movimentar, tanto física quanto
psicologicamente e que apenas aqueles que vivem se movimentam, aproximam-se da
auto-realização”.
A partir da consideração desse contexto de necessidade de
movimentação do homem, o objetivo deste trabalho é analisar os benefícios da
prática de atividade física de longa duração, em especial a corrida rústica,
que no nosso mundo adquiriu um caráter de hobby
de milhares de pessoas que vêem nela, às vezes, um caráter até religioso, capaz
de trazer de volta toda a alegria e liberdade que deveria caracterizar a vida
humana.
Na década de setenta ocorreu um primeiro boom, isto é, um crescimento acima do normal dos praticantes de
corrida nos Estados Unidos da América, que propagou-se como moda pelo mundo
todo, inclusive no Brasil, onde o governo implantou esta prática nas bases do
EPT (Esporte para todos) visto que era uma atividade barata, que poderia ser
praticada em qualquer local. Muitos críticos viram nas entrelinhas da EPT
apenas um fator de alienação da população. Aproveitaram-se dos benefícios da
Corrida, principalmente os psicológicos e investiram maciçamente em propagandas
a fim de “diminuir” o peso dos problemas que o país vivia.
No começo dos anos oitenta, principalmente nos EUA, ouve um
retrocesso no crescimento dos participantes de corrida rústica, especialmente
por causa da morte de James F. Fixx, autor do Guia Completo de Corrida, tida
como a Bíblia dos corredores. Fixx teve morte súbita quando praticava a sua
corrida diária, isto causou grande pavor nos praticantes desta modalidade,
fazendo com que muitos desistissem de tal prática. Somente com exames mais
detalhados ficou-se sabendo que Fixx tinha um problema em seu coração, o que o
levou a óbito, possivelmente ele já teria vivido muito mais anos do que sua
carga genética permitiria.
No final dos anos oitenta, com maior esclarecimento acerca
dos problemas e benefícios da corrida de longa duração, ouve um novo boom, devido a uma maior preocupação com
um novo estilo de vida adotado, um estilo saudável de viver, escapando de toda
a pressão da vida moderna. (LOURENÇO, 2003, p.36).
A corrida pode ser um excelente método de prevenção de
doenças cardíacas, respiratórias, dentre muitas outras, desde que seja bem
orientada, pois sua prática depende da freqüência e intensidade para que a
mesma não se torne um problema em vez da solução. Dentro deste contexto que o
praticante da corrida deve ter pleno conhecimento das mudanças ocorridas em seu
corpo e mente e a partir daí dizer se esta é a melhor maneira de levar sua
vida.
O trabalho está estruturado
em três capítulos. O primeiro é dedicado à exposição dos benefícios físicos
ocasionados pela prática regular da corrida de longa duração. O segundo analisa
os aspectos psicológicos, seus benefícios para o praticante. E no terceiro
capítulo temos uma exposição de alguns problemas decorrentes do exagero na
prática da corrida de longa duração e como tratá-los e prevenir sua ocorrência.
A prática da corrida de longa duração acarreta grandes
efeitos fisiológicos, que são as adaptações que o corpo sofre decorrentes dessa
atividade. A compreensão destas adaptações propiciará ao treinador e ao atleta
uma melhor percepção dos benefícios a fim de tirar um melhor proveito desta
prática.
Toda energia utilizada durante o movimento atlético provém
sempre do músculo que está sendo utilizado. Assim, é dentro do músculo em ação
que ocorre alterações químicas que tem por objetivo fornecer energia para a
atividade física. A corrida aeróbica (longa duração) induz o organismo a
adaptações que melhoram a eficiência desse sistema.
Dentro das alterações bioquímicas temos o aumento do conteúdo
de mioglobina, que tem por função ajudar o movimento intracelular
(fornecimento) de oxigênio da membrana celular para as mitocôndrias onde é
consumido. Esse aumento é específico, visto que em corredores de fundo o
conteúdo de mioglobina cresce nos músculos, quadríceps da coxa, posterior da
coxa e panturrilha, ou seja, os mais utilizados na corrida de longa duração.
Esse aumento pode ser de 70% a 80%, dependendo da freqüência do treinamento,
dois, quatro, seis dias por semana (FOSS; KETEYIAN, 2000, p.281).
O treinamento regular induz a uma melhor oxidação dos
carboidratos que no organismo é utilizado sob a forma de glicogênio. Ou seja, o
organismo acaba utilizando o glicogênio mais eficientemente do que uma pessoa
sedentária. O treinamento adapta as células do organismo de duas maneiras na
realização dessa tarefa. É o aumento no número, no tamanho e na superfície das
membranas das mitocôndrias de músculo esquelético, um aumento no nível de
atividade e concentração das enzimas que auxiliam nesse processo. Com o
treinamento de longa duração aumenta em até 120% o número de mitocôndrias no
músculo, o aumento do tamanho das mitocôndrias não é tão acentuado quanto o
aumento do número. Além da maior capacidade do músculo em oxidar o glicogênio,
observa-se também um aumento na quantidade de glicogênio armazenado no músculo
após o treinamento.
Como na corrida de longa duração, o combustível mais utilizado
como fonte de energia é a gordura, sua oxidação também melhora com o treinamento,
a maior disponibilidade de gorduras para o músculo esquelético pode exercer
um efeito positivo sobre o desempenho de longa duração. Assim, quando se corre
em determinada intensidade (baixa) o uso da gordura é maior, preservando o
glicogênio muscular, também são melhor utilizadas grandes moléculas de gorduras.
Todas essas modificações bioquímicas,
maior conteúdo de mioglobina, melhor oxidação dos carboidratos e melhor
oxidação da gordura, contribuem com o preparo físico em si, seus objetivos são
contribuir para a manutenção e melhoria da capacidade física, contribuem com a
saúde de uma forma indireta decorrente da melhoria da capacidade física.
As alterações cardiorrespiratórias decorrentes da atividade
física têm por objetivo fornecer oxigênio aos músculos ativos. Essas alterações
são observadas em repouso e durante o exercício.
Em repouso, são observadas seis alterações: um maior tamanho
do coração, uma redução na freqüência, um maior volume de ejeção, algumas
modificação nas medidas pulmonares, um aumento no volume sangüíneo e na
concentração de hemoglobina e uma maior densidade capilar e hipertrofia do
músculo esquelético (FOSS; KETEYAN,2000, p.283).
Um fator observado por médicos e fisiologistas em necropsias
é um grande aumento no tamanho do coração (hipertrofia). Em atletas que
praticam atividades de longa duração, há um grande aumento dos ventrículos de
onde o sangue é bombeado para todo o organismo e pulmões. Este aumento faz com
que o volume de ejeção que é a quantidade de sangue que sai do coração em cada
contração aumente de 70 mililitrosnuma pessoa
normal para cerca de 110 ml em atletas de auto nível. Este aumento parece estar
relacionado com o estresse mecânico imposto ao coração, pois durante a prática
de longa duração, as paredes dos ventrículos são forçadas a se expandirem.
Uma das conseqüências do aumento do Volume de Ejeção é que,
durante o repouso, o coração de um atleta fundista apresenta uma bradicardia,
que é a redução dos batimentos do coração por minuto em valores abaixo de 60
por minuto. Este benefício comprova que um coração treinado precisa se
desgastar menos durante o dia, uma vez que bate cerca de 20 vezes menos por
minutos do que de uma pessoa normal. É deste modo que o coração, através do
exercício aeróbico, torna-se mais forte e mais eficiente.
Um
coração exercitado é mais eficiente, não apenas em repouso e durante o
exercício, quando retorna ao normal mais rapidamente. Além disso, como um
coração exercitado bate mais lentamente do que os outros, há um maior período
de repouso entre cada contração. (FIXX, 1977, p.342)
Durante a prática da corrida aeróbica, a
maior parte do sangue do organismo vai ser direcionado para as pernas, onde o
oxigênio transportado por ele é mais necessário naquele momento.
Segundo FIXX (1977, p.339), com o treinamento repetido, uma
mudança importante ocorre no sangue: o corpo, aprendendo a esperar que o volume
de sangue seja periodicamente reduzido, aumenta seu suprimento. Assim, quando o
fluido deixa a corrente sangüínea, no início do exercício, permanece uma
quantidade maior para executar as tarefas essenciais.
Junto com esse aumento do volume sangüíneo, há um pequeno
aumento na quantidade de hemoglobina, que é responsável pelo transporte do
oxigênio no sangue, fazendo-o chegar aos capilares sangüíneos, onde são
utilizados pelos músculos. Deste modo, o transporte de oxigênio torna-se mais
eficiente, melhorando a capacidade física, tanto em repouso como durante a
atividade física.
Como o volume de oxigênio torna-se maior, outro fenômeno
ocorre nos músculos esqueléticos: há uma maior densidade capilar. Os capilares
são os locais onde o oxigênio é repassado para os músculos. Assim, como há mais
oxigênio, o organismo do atleta faz com que o número desses capilares aumente,
buscando cada vez mais uma maior eficiência do músculo. Segundo FOSS (2000,
p.287), a densidade capilar aumenta de 4,4 capilares por fibra muscular para
cerca de 5,9 por fibra.
Os pulmões, onde o ar
carregado de gás carbônico é trocado por oxigênio pronto para ser consumido, se
beneficia tornando-se mais forte e aumentando sua capacidade de armazenar e
trocar oxigênio com o organismo. Os alvéolos pulmonares, cerca de 300 milhões,
são os responsáveis por essas trocas gasosas, com o treinamento, alguns que
ficam fechados para essa função começam a funcionar, aumentando de cerca de 4
litros de oxigênio armazenados no pulmão, para cerca de 6 litros em indivíduos
altamente treinados. Como mais ar significa mais oxigênio, os benefícios são
óbvios.
Outras alterações são as que ocorrem no
tecido conjuntivo que incluem ossos, ligamentos, tendões, articulações e
cartilagem.
Devido à força mecânica impostas aos ossos estes tornam-se
mais fortes e resistentes, evitando, em mulheres, o aparecimento da
osteoporose, que é um enfraquecimento ósseo decorrente da perda de cálcio. Como
o cálcio ajuda na contração muscular, o organismo treinado tem a capacidade de
absorvê-lo aumentado e o que não é utilizado acaba sendo direcionado para os
ossos.
As alterações nos ligamentos e tendões são de que a força de
ruptura é aumentada. As inserções ligamentares e tendinosas no osso tornam-se
mais fortes, conseqüentemente previnem em atletas treinados a ocorrência de
lesões.
Nas articulações e cartilagens há um aumento na espessura
responsável pela sustentação das sobrecargas.
A composição corporal modifica-se e muito após um período
regular da prática da corrida de longa duração. O percentual de gordura e o
peso total são reduzidos. Ao mesmo tempo, observa-se um aumento da massa
corporal magra (músculo). Os níveis de colesterol e triglicérides são
reduzidos, observando-se a manutenção do bom colesterol HDLP (lipoproteínas de
alta densidade) e uma queda do colesterol VLDL (lipoproteína de baixa
densidade), que faz muito mal ao organismo. Isto provocará uma redução do risco
de sofrer um infarto do miocárdio.
Como observamos, a corrida rústica aeróbica provoca grandes
adaptações do organismo. Em sua maioria, são benéficos para a saúde, apesar
que, biologicamente, estas adaptações servem somente para manter o estado de
preparação física, ou seja, são respostas do organismo ao estresse mecânico decorrentes
do treino aeróbico que indiretamente beneficiam nosso organismo, tornando-o
mais forte, rápido e frágil.
Mas, ao analisarmos pessoas que praticam corridas, observamos
que a maioria desconhece todo este processo de adaptações orgânicas, experimentam
seus benefícios sem saberem porque se sentem mais resistentes, porque dormem
melhor, porque se alimentam melhor. Sofrem as adaptações sem se darem conta do
que ocorre em seu interior.
O que os mantém nessa prática regular durante anos não é
saber de todos estes benefícios, mas sim fatores psicológicos que ocorrem no
organismo e que a corrida ajuda a exteriorizar, como: controle da ansiedade,
domínio de si mesmo, disciplina, maior capacidade de concentração, alívio do
estresse, maior satisfação sexual, sentimentos positivos, etc.
Correr começa com a mente, não bastam os músculos se
contraírem involuntariamente, há um sistema que comanda toda essa ação. É o
Sistema Nervoso Central que também é um dos beneficiários da prática regular da
corrida.
Nosso cérebro, assim como todo nosso organismo depende do
perfeito estado de saúde para funcionar corretamente, se a pessoa se alimenta
mal, bebe exageradamente bebidas alcoólicas ou fuma, o cérebro sentirá o peso e
não trabalhará corretamente, porém, se o indivíduo pratica uma atividade física
regular, dorme bem, se relaciona com várias pessoas, ou seja, mantém os níveis
de estresse muito baixo, terá um desempenho notável.
Os beneficiários fisiológicos que beneficiam os psicológicos
no cérebro são: uma maior irrigação sangüínea devido à dilatação das artérias e
veias que vão para o Sistema Nervoso Central. Os estímulos nervosos tornam-se
mais rápidos, melhorando o raciocínio e principalmente a liberação pelo cérebro
de endorfina que é uma substância que inibe a dor e provoca um estado de
euforia na pessoa.
Alguns corredores relatam que durante a prática da corrida
sentiram uma sensação de incrível estar e prazer. Uma sensação de que suas
mentes se saltam por caminhos não muito conhecidos. (PAULA, 1997, p.38).
A partir de 1975,
pesquisadores americanos descobriram que o cérebro produz substâncias que, ao
serem ativadas, podem suprimir a sensação de dor e provocar variações de humor.
Essas substâncias, naturalmente criadas dentro do nosso corpo, são chamadas
endorfinas.
As endorfinas têm como principal papel controlar a dor e
melhorar o humor. Segundo Anderson (apud PAULA, 1997. p. 38), o estresse
emocional ou físico ativa sua liberação. Por isso é fácil entender porque a
corrida – um estresse físico – pode provocar o aumento das endorfinas,
bloqueando a transmissão da sensação de dor para nossa consciência; assim, a
sensação de euforia seria um resultado natural do organismo para atenuar o
cansaço e as dores provocadas pelo desgaste.
Nem todos os corredores experimentam essa sensação, pois,
como também nos mostra o autor acima citadohá alguns requisitos para experimentá-la:
correr em
baixa intensidade ou em todo do seu ritmo de treino não libera endorfinas;
é
necessário correr em torno de 76% de sua capacidade máxima de batimentos
cardíacos para liberar endorfinas;
Para saber sua
capacidade máxima de batimentos cardíacos é só pegar 220, que é o valor da
freqüência máxima de batimentos cardíacos que um indivíduo pode atingir, ou
seja, jamais deve-se trabalhar com pessoas normais neste limite ou muito perto
dele . Deste valor, subtraímos a idade do indivíduo e temos uma zona alvo onde
a endorfina começa a ser liberada.
220 – 25 = 195 x 76% = 148
Ou seja, para se liberar endorfinas tal indivíduo deveria
correr a 148 batimentos por minuto durante mais de 30 minutos que é o tempo
mínimo para ocorrer a liberação da endorfina e pode chegar a duas horas,
depende de cada atleta. Chegamos a conclusão que para se liberar endorfinas a
pessoa deve ter uma aptidão física fenomenal (se compararmos a média
populacional)
De acordo com Fixx (1977, p. 45-52), diversas
necessidades relacionadas ao fato psicológico são atendidos quando corremos
diariamente, fatores estes que mantém a maioria dos corredores em sua atividade
diária, são eles:
§A necessidade do
movimento. O estilo de vida moderno vai gradativamente nos privando de toda
e qualquer oportunidade de realizarmos movimentos livres necessários à vida do
homem. Ao corrermos, complementamos esta necessidade.
§A necessidade de
auto-afirmação. Durante nossa vida somos dominados pelos outros, chefes,
sargentos etc. Ao corrermos, não somos dominados por ninguém, nos afirmamos
como únicos responsáveis pelo nosso movimento, corremos no ritmo que quisermos,
para onde quisermos, sem pressão de ninguém. Nessa hora nós mandamos em nosso
corpo.
§A necessidade de
autodomínio. Os corredores possuem um maior controle de suas vidas. Mao
Tse-tung escreveu que “de modo geral, qualquer forma de exercício, se praticado
continuamente, irá ajudar-nos a adquirir perseverança” (apud FIXX, 1977, p.
46). As corridas de longa duração são particularmente favoráveis.
§A necessidade de
brincar. Embora quase todos tenhamos deixado de brincar, jamais nos
livramos dessa necessidade. Brincar não apenas nos manterá mais jovens, mas
também ajuda a preservar um senso de perspectiva em relação às coisas mais
sérias. Correr é brincar, por mais arduamente que nos empenhemos, é um alívio
das preocupações cotidianas.
§A necessidade de
mergulharmos em algo maior do que nós. O grande apelo da religião e de
muitos movimentos de massa está em sua capacidade de permitir-nos esquecer a
nós próprios, de anularmos nosso ego numa causa maior do que nós. Algo assim
sucede quando se corre. Correr é uma experiência tão intensa que nos libertamos
de toda autoconsciência e vivemos exclusivamente o momento da corrida.
§A necessidade de
meditar. Enquanto corremos estamos livres para pensar e avaliar por vezes
os problemas do nosso dia-a-dia, tirando daí soluções muito bem elaboradas.
Muitos corredores afirmam que entram num estado de transe, como se estivesse
meditando, deixando seus pensamentos vaguearem por onde bem desejarem.
§A necessidade de
viver nossos próprios ritmos. Nossa vida é em grande parte atormentada por
horários e programações impostos por outras pessoas. Correr proporciona um meio
de se escapar a isso. Podemos correr para onde bem quisermos. Podemos correr
mais depressa ou mais devagar, com mais ou menos empenho. Correr permite-nos
ajustar nossas vidas a nosso próprio ritmo.
Fixx (1977, p. 50) considera ainda que,
se estas necessidades são de fato autênticas e se correr proporciona uma
satisfação, pode-se inferir que os corredores são, de certa forma, diferentes
das outras pessoas. Há duas maneiras de apresentar as evidências. Mostrar que
correr influenciou o comportamento de pessoas específicas de maneiras
específicas ou mostrar que, na ausência de evidências objetivas, tantas pessoas
informam experimentarem os mesmos sentimentos, que é justificável conceder-lhes
alguma credibilidade.
Enfim, apesar das endorfinas, o que nos
faz correr é a liberdade de sentir o nosso corpo em movimento, de sair de nossa
rotina diária de trabalho e trânsito e extravasar através do suor. A corrida
proporciona uma liberdade que sentíamos quando éramos crianças, quando
corríamos para brincar no parque. Nos leva a conhecer outras pessoas com os
mesmos interesses, a conhecer lugares diferentes e a viajar. Torna nossos
hábitos de vida melhores, nos induz a uma alimentação melhor e a dormir um
maior número de horas. Faz os músculos e coração ficarem mais fortes, melhora a
saúde e, além de tudo isso, traz uma grande sensação de felicidade.
A prática da corrida, para que seus benefícios sejam
aproveitados ao máximo, deve ser bem orientada por um profissional da área de
Educação Física, caso contrário o exagero e desconhecimento de sua prática podem
levar o atleta a ter problemas sérios de saúde ou desenvolver lesões crônicas ,
que são lesões de desgaste articular de difícil cicatrização.
A seguir, analisaremos algumas lesões decorrentes da corrida
de longa duração e os métodos utilizados em sua cura, e os métodos que podemos
utilizar para a prevenção dessas lesões.
Condromalacia
patelar:É uma das lesões
mais comuns entre corredores. É uma lesão relacionada com o atrito
excessivo entre a patela (rótula) e a extremidade do fêmur, o osso da
parte superior da perna. Quando os ossos se ajustam de maneira adequada, a
patela se move suavemente dentro de uma depressão na extremidade inferior
do fêmur. Ocasionalmente, no entanto, o ajustamento é incorreto e, ao
invés de ficar totalmente dentro da cavidade a que pertence a patela, fica
roçando em um de seus lados. Se esse atrito é prolongado, desgasta uma
parte da cartilagem da patela. O resultado é a dor, rigidez e inchaço.
Este tipo de lesão é aliviada pelo simples recurso de reduzir
temporariamente a quilometragem habitual por exercícios de fortalecimento
dos músculos quadríceps e por correr numa superfície ligeiramente
inclinada para baixo, na direção do lado lesionado. (FIXX, 1977, p.232).
§Fraturas por estresse: é uma pequena alteração
na estrutura óssea causado pelo esforço ou solavanco. Geralmente não exige
gesso ou ataduras, desaparecendo com algum repouso. O diagnóstico é difícil,
até mesmo para o médico que não sabe o que procurar, porque as fraturas de
estresse nem sempre aparecem nas radiografias. Ocorrem mais freqüentemente nos
ossos mais longos dos dedos do pé (os metatarsos) e nos dois ossos da parte
inferior da perna (a tíbia e a fíbula). As fraturas de estresse quase sempre
desaparecem em cerca de seis semanas, se o treinamento for reduzido a um ponto
tal, em que você possa correr comodamente. Correr numa superfície macia também
ajuda. (FIXX, 1977, p.233).
Fasciíte plantar: é uma inflamação que ocorre no ponto
em que os ligamentos na sola do pé se juntam com o calcanhar. O principal
sintoma é dor no calcanhar. A fasciíte plantar pode ser aliviada por
protetores de calcanhar.
Periostite de esforço: ocorre na canela, entre a tíbia
e o músculo sóleo. É uma inflamação do periósteo, que é uma membrana que
recobre o osso por ação do músculo sóleo que, ao contrair-se, força o
periósteo da tíbia. Pode ser aliviada aplicando-se gelo no local e
reduzindo a quilometragem diária até o problema desaparecer. (KNOPLICH,
1984, p.16).
Ao observarmos algumas dessas lesões,
podemos concluir que a maioria decorre do exagero nos treinamentos, ou seja, um
“sobreuso”.
A condromalacia patelar, a fratura por
estresse, a fasciíte plantar e a periostite de esforço eram tidas como
decorrência do incrível número de impactos dos pés sobre o solo, ao longa de
uma hora de treinamento.
Contudo, sabe-se hoje que o “sobreuso” é
apenas o agente precipitador. O sobreuso examina o corpo em busca de fraquezas
biomecânicas do atleta e aloja ali os seus sintomas. (SHEEHAN, 1996, p.138).
Esta instabilidade biomecânica pode ser congênita ou
adquirida, estrutural ou postural. Geralmente acaba combinando essas duas
naturezas. De acordo com Sheehan (1996), as debilidades biomecânicas congênitas
ou estruturais são:
Pés
fracos: Geralmente é causado por um problema chamado dedo de Norton,
que é o maior comprimento do dedo posterior ao dedão ser maior do que o
mesmo, causando uma debilidade que propicia os pés a terem lesões.
Anomalias
sacro-lombares: Pacientes queixosos de dores ciáticas apresentam
anomalias em seus raios-x sacro-lombares.
Discrepâncias
no comprimento da perna: isso pode causar uma variedade de ajustes
biomecânicos que impõem estresse sobre pés e a pélvis. Dores nos pés,
pernas, joelho e ciáticos podem resultar daí.
Já as debilidades adquiridas têm a ver com os desequilíbrios
existentes no tocante a força e flexibilidade muscular. Esses problemas
decorrem do aumento brusco no volume de treinamento e dividem-se em:
Rigidez
dos motores primários: rigidez dos músculos posteriores da tíbia,
gastrocnêmios, sóleo, posteriores da coxa e iliopsoas. A inflexibilidade
abaixo do joelho impõem estresse adicional sobre um pé já inadequado, que
irá se comportar deficientemente, levando o problema do tendão de Aquiles,
dos joelhos e da panturrilha. Acima do joelho, esta inflexibilidade pode
causar a rotação anterior dos quadris, lordose e sintomas ciáticos.
Fraqueza
dos músculos antagonistas: a fraqueza dos músculos quadríceps femural
(coxa) e as abdominais contribuem para as canelites e outras síndromes da
face anterior, além de estiramentos dos quadríceps e síndrome
sacro-lombares. (SHEEHAN, 1996, p.139).
Quando se analisam as síndromes de sobreuso, o papel do tênis
de corrida e da superfície sobre o qual se corre também deve ser considerado.
Mesmo calçando bons sapatos, com os suportes adequados, o corredor que tiver
suscetibilidades congênitas ou adquiridas poderá estar em perigo, caso corra
sobre superfícies irregulares ou inclinadas, como as ruas de muitas cidades. Em
ruas assim, correr na contra-mão estressa o pé direito e correr no sentido do
tráfego estressa o esquerdo.
Uma vez que as lesões tenham sido diagnosticadas, o
tratamento deve prosseguir pautado, sempre, por diretrizes biomecânicas.
(SHEEHAN, 1996, p. 140).
Deve
corrigir qualquer problema biomecânico no pé. Sobrecargas inadequadas
sobre o primeiro metatarso devem ser corrigidas e a posição de
neutralidade do pé, restabelecida;
A relação
força/flexibilidade será avaliada, prescrevendo-se exercícios corretivos
quando houver necessidade;
Recomendações
quanto ao calçado apropriado e a superfície adequada sobre a qual se deve
treinar devem ser oferecidas ao corredor, assim como dicas de treinamento
e estilos de corrida;
Acima de
tudo, o tratamento deve contemplar a causa e não o efeito;
O tratamento das síndromes de sobreuso requer uma análise
biomecânica atenciosa do pé do corredor, sua coluna lombar e seu sistema
muscular, além de conhecimento de suas condições de treinamento. Ao menos que
eventuais debilidades biomecânicas sejam corrigidas, o tratamento não será
bem-sucedido. Conseqüentemente, a volta à corrida ocasionará a volta dos
sintomas. Correr sem dor é puramente uma questão de análise apropriada e
tratamento integrado.
No decorrer deste trabalho, buscou-se esclarecer todos os
benefícios físicos e psicológicos da prática de corrida de longa duração, assim
como alguns problemas decorrentes do excesso de sua prática e alguns cuidados
que deve-se tomar para que todos os benefícios sejam aproveitados da melhor
maneiro pelo praticante.
Observamos que tanto os benefícios físicos quanto os
psicológicos melhoram com a prática da corrida e que esta melhoria está
relacionada apenas com a manutenção crescente do estado de preparação física e
que, de forma indireta, acabam beneficiando seu praticante, tornando-o mais
forte, saudável, melhorado seu sono, baixando seu nível de estresse, dentre
outros benefícios.
E concluímos que, para a manutenção de todos, este estado
saudável de vida proporcionado pela corrida, esta deve ser bem orientada, nas
bases biomecânicas e fisiológicas, de preferência por um profissional da área
de educação física, evitando, assim, os exageros que levam a lesões
irreversíveis que podem tirar o praticante pelo resto de sua vida de sua
prática saudável da corrida.